História de Sapucaia

A história de Sapucaia – Rio de Janeiro

Rio Parayba – 1835 -“Viagem pitoresca através do Brasil”, de Johann Moritz Rugendas – Domínio Público

Sabe-se com certeza que desde o século XVII a região ocupada pelo nosso município à margem direita do Rio Paraíba do Sul, na Província do Rio de Janeiro, foi habitada por tribos dos índios Purys e Coroados. Conhecido como Sertões dos “índios bravos”, nossa região foi descrita desta forma na Carta Topográfica da Capitania do Rio de Janeiro em 1767. Em consequência da chegada dos portugueses e da tentativa de sua escravização foi então que se viram forçados a se refugiar pelo interior fluminense.

Os índios deixaram velhas trilhas pelas quais, a partir do século XVIII, foram usadas por contrabandistas que traziam o ouro de Minas Gerais, atravessando a zona da mata passando pelo “Arraial do Cágado”, atual município de Mar de Espanha, Chiador, Anta, Sapucaia e Jamapará, por onde atravessavam o rio Paraíba do Sul para burlar a fiscalização existente na via oficial, o “Caminho Novo” (Estrada Real), que passava a poucas léguas da região. Desta forma, a área hoje pertencente ao município de Sapucaia também integrava a rota patrulhada pelo Regimento de Dragões, do qual fazia parte o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, conhecido pela alcunha de Tiradentes.

Sant’Ana (Jamapará), localizada na margem direita, onde hoje é a sede do quarto distrito, já em 1784 quando foi criado o Porto ou Registro do Cunha, servia como ponto de parada de tropeiros. As comitivas faziam paradas para repouso à sombra das sapucaias, assim como no descampado da vila de Sapucaia no local que mais tarde viria a ser conhecido como “Largo do Coronel Custódio”, e aonde em 1880 veio a ser construído o edifício do Paço Municipal.

Nessa ocasião tanto o Sargento-mor Pedro Afonso Galvão de São Martinho, como o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, integrantes do Regimento de Dragões, cumpriam o reconhecimento de estradas e caminhos que abertos estivessem, fazendo a ligação entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro, logo, Tiradentes passava por Sapucaia e região em rondas ou patrulhas, inclusive em trilhas abertas pelos nativos. De tal missão resultaria o desbaratamento do núcleo de Mão de Luva, Manuel Henriques, que acabou sendo preso pelo Regimento de Dragões e remetido para Vila Rica com o seu bando.

Mão de Luva, ou Manoel Henriques, que para os romancistas foi um importante nobre português que conquistou o coração da então princesa e futura rainha Dona Maria I e para historiadores, foi um esperto aventureiro que se instalou nos sertões de Macacu, atual região do município de Cantagalo, onde liderou um grupo de exploradores de ouro e depois fugiu.


Chegada da Família Real de Portugal ao Rio de Janeiro em 7 de março de 1808/Óleo sobre tela. Geoff Hunt – RSMA/1999 – 69 X 92 cm/Coleção Particular


A chegada da família real ao Brasil em 1808, trouxe modificações ao Rio de Janeiro que iriam refletir diretamente na história de criação do município de Sapucaia. Neste mesmo ano, D. João VI autorizava por carta régia a abertura dos portos às nações amigas de Portugal, e logo em seguida a Coroa Portuguesa distribuiu vastas sesmarias fomentando o cultivo do café, açúcar e a criação de gado, nas terras doadas. Desta forma a mata deu lugar às lavouras de café que se expandiram por terras sapucaienses.

Entre 1811 e 1830, o afluxo de colonizadores italianos, portugueses, suíços, sírios e espanhóis, ao lado das levas de escravos africanos para essa região, intensificadas pela construção de fazendas com vastas plantações de café, representaram sempre os máximos fatores de progresso e garantiram a herança de gloriosas estirpes. Como exemplo disso podemos citar a Senhora Magdalena Maria Pereira, irmã de Antonio Barroso Pereira, futuro 1º barão de Entre Rios, que em 1813 edificou a fazenda Sant’Anna e a primeira capela de Sant’Anna no local onde se desenvolveria o arraial de Anta, segundo distrito.

A partir de 1835, com as obras da “Estrada do Couto”, vinda de Magé (Porto Piedade), realizadas pelo Capitão Francisco Leite Ribeiro, juntamente com seu sócio e irmão, Coronel Custódio Ferreira Leite, mais tarde, barão de Ayuruoca, e a construção da primeira ponte projetada pelos engenheiros Coronel Conrado Jacob Niemeyer e Major Júlio Frederico Koeler, chefe da segunda seção de obras da província do Rio de Janeiro, entre Sapucaia e Mar de Espanha, concluída em 1841, foi inevitável o estabelecimento de comerciantes e de mascates em Sapucaia para atender às necessidades dos que trabalhavam no empreendimento.

Em 1841 o importante botânico, zoólogo e médico inglês, George Gardner, em sua viagem pelo Brasil, passando por terras sapucaienses relatou o seguinte em seu livro “Viagem ao Interior do Brasil”: “Sapucaia é uma pequena aldeia com poucas casas, de recente construção, que deve sua origem à proximidade da nova ponte, ora em construção sobre o rio, em conexão com a estrada do Coronel Leite para a província, de Minas Gerais”.

Paralelamente por iniciativa de fazendeiros como os suíços, Antônio Ignácio Lemgruber e Vicent Uberlart, foi edificada então, uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição de Aparecida no local onde rapidamente surgiria um pequeno arraial que se tornaria freguesia em 26 de abril de 1842, através da Lei nº 262, assinada pelo presidente da Província do Rio de Janeiro, Honório Hermeto Carneiro Leão – Marquês de Paraná, proprietário da fazenda Lordello, dando início ao surgimento do município que inicialmente deveria ter sua sede em Aparecida.

Com a morte do Brigadeiro de Cavalaria Inácio Gabriel Monteiro de Barros, filho do Visconde de Congonhas e deputado provincial do Rio de Janeiro, proprietário e fundador da fazenda Monte Café e do próprio Honório Hermeto Carneiro Leão – primeiro e único Barão e depois Marquês de Paraná, seu compadre, a possibilidade da Freguesia de Aparecida se tornar a sede do município acaba se tornando cada vez mais distante.


Foto: Victor


Durante a construção da primeira ponte pênsil, entre 1854 e 1857, (terceira ponte erguida entre Sapucaia e Minas Gerais), pelo engenheiro francês M. Astier, sob a encomenda e também às expensas, do Barão de Ayuruoca, Sapucaia é elevado à categoria de Curato. Em 16 de setembro de 1871, graças aos esforços de seus fazendeiros e principalmente do Coronel Custódio Ferreira Leite, barão de Ayuruoca (falecido), que também as suas expensas e de alguns devotos, fundou e deu princípio a construção da capela – mor de Santo Antônio, Sapucaia torna-se freguesia através da Lei Provincial n° 1.600, assinada por Josino do Nascimento Silva, Presidente da Província do Rio de Janeiro, que em seu artigo único trouxe o seguinte texto: “A povoação da Sapucaia no município de Magé, fica elevada à categoria de freguesia sob a invocação de Santo Antônio da Sapucaia, conservando os limites que atualmente tem como curato eclesiástico nesta província: revogadas as disposições em contrário”. Três anos mais tarde a Freguesia eleva-se a categoria de Vila.


Quadro Tropeiro de Jean-Baptiste Debret


De 1830 a 1875 a produção cafeeira fluminense teve seu apogeu e Sapucaia estava diretamente ligada a este sucesso mesmo não sendo tão propagada em relação às cidades de Piraí, Vassouras e tantas outras do sul fluminense. Entre 1854 e 1857 Sapucaia exportou 7.3 toneladas de café chegando a utilizar 28.573 muares para o seu transporte.


Foto: Arquivo CMS

Em 20 de dezembro de 1871 a estação ferroviária da Estrada de Ferro Dom Pedro II finalmente é inaugurada em Sapucaia e as toneladas de café, antes exportadas em lombos de mulas, poderia finalmente ser escoada pelos trens. Nossa primeira estação ferroviária destacava a importância da economia sapucaiense e o valor de seu “Ouro Negro”.

No dia 7 de dezembro de 1874, a Lei Provincial nº 2.068, assinada por Francisco Xavier Pinto de Lima, o barão de Pinto Lima, Presidente da Província do Rio de Janeiro, selada e publicada na secretaria de governo e registrada no livro competente em 09 de dezembro pelo secretário, Pedro Orstin Grimaldi Pereira do Lago, cria então a vila da Sapucaia, trazendo o seguinte texto: “Artigo 1° – Ficam desmembradas do Município de Magé as freguesias de Santo Antônio da Sapucaia e Nossa Senhora da Conceição da Aparecida, e do município da Paraíba do Sul, a freguesia de São José do Rio Preto, constituindo um município que terá sua sede no arraial da Sapucaia, elevado à categoria de Vila e pertencente à Câmara Municipal da Paraíba do Sul. Artigo 2° – A vila da Sapucaia terá dois tabeliães, que serão também escrivães de órfãos e execuções cíveis, e mais outros criados por lei. Artigo 3° – Ficam revogadas as disposições em contrário”.

No dia 13 do mesmo mês, o barão de Pinto Lima, expediu as ordens para que no dia 28 de fevereiro de 1875, fosse então realizada a eleição dos vereadores que comporiam a primeira Câmara Municipal de Sapucaia, porém por motivos ainda não conhecidos, a Câmara reuniu-se pela primeira vez somente em 03 de abril de 1875, sob a presidência do Major José de Souza Brandão, o barão de Aparecida.

A vila sede do novo município ainda não era canonicamente provida como era de lei e não possuía cartórios de registro civil e de imóveis, o que obrigava aos que aqui nasciam ou faleciam ou que adquiriam e vendiam bens imóveis, a fazer os respectivos registros nas Freguesias de Aparecida ou de São Jose do Rio Preto, que eram canonicamente providas. Esta anomalia somente foi corrigida após representação da Câmara Municipal junto ao governo da província que intercede ao Bispo Diocesano para resolução da questão.

Em dezembro de 1889, a Vila de Sapucaia adquiriu foros de Cidade. Em agosto de 1890, foi criado o distrito de Anta. Em maio e junho de 1892, foi criado o distrito de Sapucaia e confirmado Aparecida como distrito. Em dezembro de 1943, foi criado o distrito de Jamapará desfalcando parte do território pertencente à Aparecida. Em 1943 ainda, o município era composto então por 04 (quatro) distritos: Sapucaia, Anta, Jamapará, e Nossa Senhora da Aparecida. Em janeiro de 1944 o distrito de Sapucaia foi ordenado como o 1° do município, Anta como 2°, Nossa Senhora da Aparecida como o 3° e Jamapará como 4°. O distrito de Pião só foi criado em 1964 sendo considerado como o 5° distrito do município de Sapucaia.

Alguns dos personagens de nossa história que podemos também citar são:

O Capitão e depois Major, José de Souza Brandão, único Barão de Aparecida;

O Comendador Luiz de Souza Breves, filho de Thomé de Souza Breves, sobrinho do Capitão Mor José de Souza Breves;

Jämes François Perret, nome que aportuguesado se tornou Diogo Francisco Perretti;

Dr. Francisco de Souza Brandão, formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e juiz de Paz na antiga freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Aparecida por vários anos;

Sebastião de Souza Brandão, João de Souza Brandão, Luiz de Souza Brandão, Carlos de Souza Brandão, que ocuparam cargos de sublegado e juiz de paz também na freguesia de Aparecida;

Custódio Ferreira Leite, o barão de Ayuroca, Bacharel em Direito, Fazendeiro, Capitão-mor, Major e Coronel da Guarda Nacional e Comendador da Ordem de Cristo;

Dr. Joaquim Maurício de Abreu, médico, vereador, presidente da Câmara de Sapucaia deputado federal, Presidente do Estado do Rio de Janeiro, e um dos maiores estadistas do Brasil, que evitou a morte de centenas de sapucaienses por “febre amarela” em 1884, sendo o precursor de Oswaldo Cruz e responsável pela construção do Fórum de Sapucaia;

Coronel Damaso José Barroso de Carvalho Jr, vereador em Sapucaia em 1881 que hospedou o Imperador Pedro II em sua fazenda “Barra D’antas”, em 1887, bisavô de Lincoln de Souza Miranda Carvalho, também vereador por vários mandatos e presidente da Câmara Municipal de Sapucaia por duas vezes, entre 1959 e 1962, e 1983 e 1985;

O Engenheiro Civil, Guilherme Augusto de Souza Leite, barão de Águas Claras, que também hospedou o Imperador Pedro II, na fazenda de Águas Claras, quando de 7 a 29 de Abril de 1887, a monarquia no Brasil, praticamente, teve sede em território de Sapucaia;

Dr. Antonio Aguiar, médico, cientista, escritor e tradutor do grego para português dos poemas “Odisséia” e “Ilíada” de Homero, impressos pela primeira vez na tipografia do jornal “A Sapucaia”, fundado em 1900;

Dr. Luiz Palmier, médico, escritor, membro da Academia Niteroiense de Letras, Presidente do Instituto Fluminense de Cultura, Membro da Sociedade Brasileira de Geografia, Consultor Técnico do Diretório Regional de Geografia, vereador por São Gonçalo e depois deputado pelo Rio de Janeiro, autor da emenda que criou e autorizou a construção do Grupo Escolar em Anta, que hoje tem o nome de República do Líbano, entre tantos outros.

FONTE: MELLO E SOUZA, Laura de. “Os desclassificados do Ouro: a pobreza mineira no século XVIII.” Rio de Janeiro: Edições Graal. 4ª edição, 2004. p.279.
BARBOSA, Dicionário Histórico-Geográfico. de Minas Gerais, 381/382 – SAINT-
ADOLPHE, Diccionario Geographico, Historico e Descriptivo do Imperio do Brazil, 2.
SIMÃO VASCONCELOS, História Média de Minas Gerais, Imprensa Oficial, Belo Horizonte, 1918, pag. 263.
Relatório da 2ª Sessão das Obras Públicas da Província do Rio de Janeiro, apresentado a respectiva Diretoria em janeiro de 1840 pelo Major Júlio Frederico Koeler, chefe da mesma seção, p.13 (Rio de Janeiro, Tipographia de Laemert, 1840)
GADNER, George. Viagem ao Interior do Brasil. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo, 1975;
Arquivo Público Mineiro;
GODOY, Marcelo M. Por estradas e caminhos do interior do Brasil oitocentista. Anais do XIV Seminário Sobre Economia Mineira. Diamantina: Cedeplar/UFMG, 2010. p.14;
CRAVO, Télio Anísio. Modernização esquecida, construindo pontes e estradas no Brasil Imperial: engenheiros e artífices em uma região exportadora em Minas Gerais (1850-1875). Mestrando em História pela Universidade de São Paulo (FFLCH/USP – São Paulo/Brasil) e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) 2013;
LOURENÇO, Tiago Campos Pessoa. O império dos Souza Breves nos oitocentos: política e escravidão nas trajetórias dos Comendadores José e Joaquim Breves/Tiago Campos Pessoa Lourenço. 2010;
http://alemparaibahistoria.blogspot.com.br/,blog do Professor, Historiador, Especialista em Educação e Gestão Escolar Mauro Luiz Senra;
http://www.receita.fazenda.gov.br/Memoria/administracao/reparticoes/colonia/registros.asp;
José Ribamar Bessa Freire e Márcia Fernanda Malheiros, originalmente publicado em 1997 e publicado em 08 de maio de 2007 na Educação Pública;
Pedro Vianna Born, em seu texto: “A ocupação do Vale do Rio Calçado”, publicado em seu blog, em setembro de 2011.
Arquivo da Câmara Municipal de Sapucaia;
Arquivo da Prefeitura Municipal de Sapucaia.
A Intendência em Sapucaia

Arquivo


O movimento político – militar que acaba com Brasil Imperial e instaura no país, em 15 de novembro de 1889 a República, exige uma reestruturação do aparato administrativo do Estado desfazendo-se de um aparelho burocrático considerado arcaico para o novo regime, conforme os ditames positivistas de Ordem e Progresso, garantindo a ascensão dos republicanos nos Estados Unidos do Brasil.

O governo provisório de Marechal Deodoro da Fonseca então dissolve as câmaras municipais e altera seus poderes. As Câmaras então passam a ser denominadas de Conselhos de Intendências e, em alguns municípios, os antigos vereadores do período do Império passaram então a ser denominados intendentes, numa clara alusão à ideia de administração militar fomentada por parte dos idealizadores e fundadores da República brasileira.

Os Conselhos de Intendência são responsáveis, com exclusividade, pelo poder executivo municipal separando este poder do legislativo, que continua a cargo das câmaras municipais, recompostas em seguida. As nomeações destes conselhos passariam então a ser de responsabilidade dos presidentes dos estados. Por Decreto Estadual nº 19, de 27 de dezembro de 1889, a Vila de Sapucaia adquiriu foros de Cidade.

Sapucaia teve a formação dos primeiros Conselhos da Intendência em momentos distintos: o primeiro, de 1890 a 1892, que se caracteriza por um contexto de indefinição para o exercício dos poderes executivos e legislativos e o segundo momento, a partir de 1892, tornando-se um poder administrativo local em caráter definitivo.

Em Sapucaia, o Conselho da Intendência desempenhava as funções administrativas no município e as atribuições de seu presidente seriam comparadas às do prefeito, conforme conhecemos nos dias de hoje, portanto podemos afirmar que Francisco Soares de Gouvêa foi então o primeiro “prefeito” de Sapucaia e o Dr. Joaquim Maurício de Abreu, o segundo.

FONTES: SODRÉ, Nelson Werneck. “História da imprensa no Brasil”. Editora Saraiva;
BASTOS, Ana M. Rodrigues. “O Conselho de Intendência municipal: autonomia e instabilidade (1889-1892)”. Seminário Rio Republicano. Rio de Janeiro: Fundação Rui Barbosa, outubro/1984;
Arquivo da Câmara Municipal de Sapucaia;
Câmara dos Deputados – http://www2.camara.leg.br;
Arquivo Municipal;
Procuradoria da Prefeitura Municipal de Sapucaia.
Sapucaia e suas mangas

Arquivo


Desde o início de sua colonização, a economia de Sapucaia se manteve quase exclusivamente alicerçada na agricultura. A cultura de café destacou-se em Sapucaia no Brasil Império, principalmente com a colaboração do elemento negro escravizado, porém com o advento da Lei Áurea, em 1888, o município teve um grande golpe em sua economia, e suas ricas plantações foram quase totalmente abandonadas, regredindo de forma substancial a escala de sua produção.

Um novo golpe seria desferido na economia sapucaiense a partir de 1892, ano em que o município perde para Petrópolis o território da Freguesia de São José do Rio Preto, considerado até então, a sua zona mais fértil e de maior produção cafeeira. Desta forma o município precisaria reerguer sua economia o quanto antes.

Depois do café, Sapucaia, sem a cobertura original de Mata Atlântica, receberia a “Invasão Mineira” de grandes boiadas que passam a ocupar suas terras para produzir leite, derivados e carne. Neste período aconteceria então a consolidação das atividades da pecuária no município, lá pelo ano de 1900, considerado por muitos historiadores como sendo o ano fatídico do início do declínio do café em nossa região.

Paralelamente ao início da pecuária leiteira e de corte no município, a economia também começaria a escrever um novo e importante capítulo de sua história através da produção de cana, algodão, arroz, feijão, milho, mandioca, legumes e frutas, dentre elas, os europeus, marmelo, pêssego e maça, em Aparecida, além da manga em Sapucaia. A pomicultura se desenvolve rápido em solo sapucaiense e a manga espada se torna um dos principais produtos “made in” Sapucaia entre 1920 e 1980.

O nome da fruta vem da palavra do idioma malaiala “manga”, e apesar de ser cultivada em suas regiões de origem há mais de 4 mil anos, sua introdução em outras terras foi muito lenta.

Descoberta pelos portugueses nas rotas comerciais marítimas entre a Europa e a Ásia, no início do século 16, a manga foi trazida para o Brasil por volta de 1700, e segundo o estudioso Pimentel Gomes, a fruta foi disseminada inicialmente na Bahia, tonando-se ao longo dos anos quase obrigatória na paisagem do norte e do nordeste do país, e sendo facilmente encontrada em cultivo na Amazônia e nas regiões Sudeste e Centro-Oeste.

No ano de 1786, há o registro de uma grande festa realizada no Passeio Público do Rio de Janeiro, em comemoração ao casamento de Dom João VI e D. Carlota Joaquina. O Passeio foi utilizado no inicio também como um campo de aclimatação de espécies vegetais exóticas, função essa que mais tarde coube ao Jardim Botânico. Entre as espécies plantadas encontravam-se mangueiras, amendoeiras e palmeiras.

De acordo com Pio Corrêa, a mangueira foi à árvore asiática que melhor se adaptou ao clima brasileiro, produzindo inúmeras variedades, porém em terras sapucaienses sua espécie mais tradicional seria a espada, encontrada amplamente nas fazendas, chácaras, pomares e quintais urbanos e rurais, em pequenas e médias propriedades, além de estarem presentes em espaços públicos como praças e ruas da cidade.

Sapucaia em 1922, conhecida por sua tradição no comércio de mangas juntamente com os municípios de Carmo, Paraíba do Sul e Vassouras, eram responsáveis por 90% da exportação da fruta para Capital Federal (Rio de Janeiro), porém o governo do estado alertava que a cultura da mangueira precisava ser generalizada e ampliada, pois a produção era insuficiente para abastecer a Capital, além de não atingir quantidade e valor elevado para sua exportação internacional.

Para as autoridades no assunto, os derivados da manga sapucaiense como: doces em calda, cristalizados ou em pastas, seriam produtos excelentes para exportação, porém a falta de cuidadoso processo de cultivo, seleção e de melhoria da fruta, resultariam na produção quase artesanal e no declínio de sua comercialização ao longo dos anos.

A manga espada é produzida por grandes e frondosas árvores, que podem atingir mais de 40 metros de altura e apresentar uma copa com um raio maior que 10 metros. Suas folhas são verdes brilhantes, mas quando jovens estas folhas apresentam a cor verde-folha. Suas flores são perfumadas e pequeninas, dispostas em panículas inseridas nas extremidades dos ramos. A manga espada é uma fruta do tipo drupa, alongada e achatada do lado, que madura pode ter coloração amarelo, laranja ou vermelha, sendo mais avermelhada no lado que pega sol diretamente.

Quando a fruta ainda não está madura, sua cor é verde. A sua polpa é suculenta, saborosa, doce, fibrosa e com uma grande semente no centro. Suas sementes germinam com facilidade, e por causa disso, apesar de ser originária da Ásia, ela se disseminou nas terras do município de Sapucaia, muitas vezes concorrendo diretamente com a vegetação nativa da região.

FONTES: LIMA, Roberto Guião de Souza. Arquivo sobre o “Ciclo do Café Vale-paraibano”. Uma revisão ampliada do texto original. Editora FOA.
RIO DE JANEIRO (ESTADO). RAUL DE MORAES VEIGA, 1918-1922 (PRESIDENTE). Centenário da independência do Brasil: álbum do Estado do Rio de Janeiro 1922. Rio de Janeiro: Estado do Rio de Janeiro, 1922.
MARIANO FILHO, José. Jornal do Comércio,1941.
PIMENTEL-GOMES, F. Curso de estatística experimental Degaspari. Piracicaba, São Paulo, 2000.
CORRÊA, Pio. Dicionário das Plantas úteis do Brasil, vol. V, MA/IBDF/1984.
A origem do nome Sapucaia
Em virtude da existência de grande quantidade de árvores conhecidas por sapucaieiras, nome originado do termo indígena “Yaçapucaí” (fruto), a cidade acaba recebendo esta denominação.

SAPUCAIA (Lecythis pisonis)

Ocorrência – do Ceará ao Rio de Janeiro, com predominância nos estados do Espírito Santo e Bahia.

Outros nomes – castanha sapucaia, cumbuca de macaco, sapucaia vermelha (ES), marmita de macaco, caçamba do mato.

Características – planta semidecídua com altura de 20 a 30 m com copa densa e ampla, tronco reto, casca espessa, dura e pardo-escura, com fissuras, com 50 a 90 cm de diâmetro. Folhas membranáceas, ovado-oblongas, margem serreada, nervação bem nítida na face superior glabras, parcialmente renovadas na seca. As folhas novas de cor rosa-avermelhada, juntamente com as flores de cor lilás, conferindo à sua copa beleza indescritível. Este espetáculo dura algumas semanas, atingindo o seu auge no final de outubro e passando lentamente para a cor verde normal. Somente árvores adultas (com mais de 8 anos) exibem esta característica. Flores grandes e de coloração branco-arroxeadas, bastante atraentes devido a uma estrutura cobrindo os órgãos reprodutivos.

Uma das principais curiosidades desta árvore é a forma de seu fruto, denominada botanicamente “pixídio” e popularmente conhecida como “cumbuca”. Trata-se de uma cápsula lenhosa de forma globosa de 2 a 4 kg e até 25 cm de diâmetro, dotada de uma tampa na extremidade oposta ao cabinho de fixação que se descola e cai quando o fruto está maduro para permitir a liberação das sementes.

As sementes ou “castanhas” são comestíveis e muito deliciosas. Seu sabor rivaliza com a “castanha-do-pará”, contudo não é comercial porque a produção é muito baixa e muito perseguida pelos macacos e outros animais selvagens. Geralmente uma cumbuca média contém 6 a 12 castanhas elípticas, oleaginósas, com 6 cm de comprimento, as quais contém, afixadas em sua base, um arilo branco-amarelado de sabor adocicado e muito procurado pelos morcegos. Estes recolhem as castanhas com o arilo e as levam para árvores de copa densa para saborearem, deixando cair as castanhas após a remoção do arilo, constituindo-se assim nos disseminadores naturais desta espécie. Portanto, o melhor lugar para procurar as castanhas desta árvore não é sob a sua copa, mas sob as árvores próximas de copa densa e escura. O maior consumidor de suas castanhas, contudo, não é o homem, mas sim o macaco-sauá, que faz verdadeiras loucuras para consegui-las.

Quando ainda fechadas, os macacos torcem as cumbucas como se fossem arrancá-las para acelerar a maturação. Quando parcialmente abertas, chegam a bater um fruto contra o outro na tentativa de forçar a liberação das castanhas e, segundo a lenda, dificilmente enfiam a mão dentro da cumbuca (pelo menos os mais experientes), porque isto pode prender sua mão ao contraí-la para apanhar as castanhas. Daí a expressão “macaco velho não põe a mão em cumbuca”. Geralmente ficam afixadas na árvore mesmo após a queda das castanhas por vários meses. Um kg de sementes contém aproximadamente 180 unidades.

Habitat – mata atlântica.

Propagação – sementes.

Madeira – moderadamente pesada, dura, resistente, de grande durabilidade quando não enterrada.

Utilidade – a madeira era usada principalmente para vigamentos de construções rurais em geral, esteios, postes, estacas, tábuas para assoalhos, pontes, etc. As cumbucas são usadas na zona rural como utensílio para fins diversos, principalmente para vasos de plantas ou como adorno doméstico. As castanhas são comestíveis e muito apreciadas pela fauna.

Florescimento – setembro a outubro.

Frutificação – agosto a setembro.

Ameaças – sua freqüência natural na floresta nunca foi muito alta e, hoje, já pode ser considerada rara no habitat. Isto se deve a pequena produção de sementes e a intensa perseguição dos macacos que consomem avidamente suas castanhas.